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Rio Salgadinho - JN (CE)

RIO SALGADINHO
A artéria do Juazeiro do Norte
sofre de "hipertensão"

por Ayanny Costa, Larissa Mayara e Paulo Brito

O Rio Salgado, carinhosamente chamado de Salgadinho e que margeia a cidade de Juazeiro do Norte, em menos de 30 anos, se tornou um problema de Saúde Pública e de Meio Ambiente. Seja por conta dos animais que nele residem e travam batalhas diárias em busca de ar para sobreviver, ou por conta dos moradores que sofrem com o despejo de lixo e de resíduos industriais em seu leito e em suas margens. O Rio Salgadinho, essencial para o abastecimento aquífero dos moradores juazeirenses, se tornou vítima de quem tanto precisa dele.

O problema da qualidade da água na terra de Padre Cícero não afeta apenas os moradores da cidade, pois cerca de 2,5 milhões de visitantes são atraídos para Juazeiro do Norte nos períodos das romarias. Uma possível crise hídrica prejudica também a economia e o turismo local, uma vez que, nesta época, aumenta a produção de resíduos sólidos, líquidos e metálicos paralelo ao consumo de água a nível doméstico e comercial. O engenheiro ambiental Marcos Vinícius Gomes alerta que a mortalidade dos peixes é uma das principais consequências da poluição do rio, e complementa: "Isso traz impactos econômicos e sociais. Fica maior a necessidade de investir recursos para o tratamento de água, comprometendo o consumo humano e o turismo".

Rio Salgadinho - JN (CE)

O superintendente da Autarquia Municipal de Meio Ambiente - AMAJU, José Eraldo Oliveira Costa afirma que cerca de 70% da cidade de Juazeiro do Norte não possui saneamento básico. Isso significa que apenas 3 em cada 10 casas, prédios e outras estruturas não possuem sistemas de coleta e tratamento de esgoto adequado. Quando perguntado sobre a situação do Rio Salgado, ele acrescentou que sua despoluição é tão necessária quanto o investimento em infraestrutura e saneamento.

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José Eraldo Oliveira Costa Superintendente da Autarquia Municipal de Meio Ambiente.

Rio Salgadinho - JN (CE)

“Um problema maior do que a escassez, é a qualidade da água”, afirma o Professor da Universidade Regional do Cariri e pesquisador Rodolfo Sabiá. O professor realizou mais de 3 mil análises nos rios do Juazeiro e do Crato durante sua pesquisa de Doutorado, portanto, sendo um dos maiores pesquisadores de rio no Ceará, e é categórico em afirmar que o Rio Salgado, atualmente, é um rio morto, impróprio para vida ou para consumo, dado os seus níveis de oxigênio muito abaixo do esperado para minimamente a recuperação natural dele.

Estamos falando de ações antrópicas, isto é, de seres humanos que prejudicam diretamente a saúde de animais e de outras pessoas que dependem do rio, uma vez que suas águas não somente servem de lar para peixes e cágados - uma espécie de tartaruga típica de rios - mas também porque o Rio Salgado é um dos rios que abastecem o Açude Público Padre Cícero, apelidado de Castanhão - o maior do Ceará e um dos maiores reservatórios de água doce das Américas. 

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E o Castanhão, por sua vez, atende às demandas do Sertão Central e da Região Metropolitana de Fortaleza, no litoral. Ou seja, a importância do Rio Salgadinho, tão próximo e íntimo aos juazeirenses, se estende por todo o estado, como uma artéria entregando aos órgãos oxigênio e nutrientes, no entanto, pertence a uma cidade com hábitos de "hipertensos". Por mais bem que ele faça, ainda o tratamos como um depósito de lixo, dejetos, poluição e indiferença.

Uma artéria leva sangue rico em oxigênio para o coração e este bombeia para todo o corpo, nutrindo-o. É um rio dentro do corpo. Se o Salgadinho for, então, uma artéria, está levando sangue poluído ao invés de saudável para o nosso coração, o Açude Castanhão. O próprio corpo envenena a si mesmo quando não toma cuidado com a saúde do sangue, isto é, das águas do rio.

Bacias Hidrograficas do Salgado e Alto Jaguaribe no mapa do Ceará. Elas desaguam no Castanhão.

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“O Rio Salgadinho virou o esgoto de Juazeiro do Norte”, fala com pesar Maria Luzinete, moradora próxima ao rio.

De acordo com Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento - SNIS, apenas 21,97% do esgoto de Juazeiro do Norte é coletado. A fala do José Eraldo Oliveira é precisa: “Quando a gente fala de saneamento, a gente vê a deficiência ao longo do tempo e da falta de investimento para esse setor”. No Crato, a realidade não é muito diferente. Ainda de acordo com o SNIS, até 2017, a cidade cratense coletava 63,25% do esgoto, mas apenas 0,67% passava por uma rede de tratamento. A Sociedade Anônima de Água e Esgoto do Crato - SAAEC - já confirmou que o lixo produzido pelos moradores segue pelos rios.

Ou seja, Juazeiro do Norte, e algumas cidades adjacentes, se erguem sobre antigas estruturas feitas para armazenar dejetos humanos, as chamadas fossas, e algumas dessas possuem metros de profundidade e dada sua natureza antiga, em muitos casos não foram feitas proteções para impedir a contaminação do lençol freático.

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Mesmo os rios tendo a capacidade de restaurar suas características de forma natural, outros fatores interferem em sua manutenção. Marcos Vinicius Gomes informa que não se pode continuar a poluição do  Salgado, uma vez que a chegada do período chuvoso carrega o lixo para outras partes do rio e dificulta a coleta dos resíduos. O descarte errado dos resíduos, muitas vezes de maneira direta em suas margens, contribui para a interrupção do ciclo natural.

Tal ação causa indignação em moradores próximos ao Rio Salgadinho. Antônio Leite, motorista de 64 anos, por exemplo, comenta que o leito era bem mais largo, o que permitia uma maior passagem de água, e esta era translúcida e muito forte. “O homem acabou com tudo” Seu Antônio diz com tristeza, pois o Salgadinho limpo fez parte da sua infância e adolescência e agora ele se depara com suas águas sujas.

“Dava pra gente tomar banho, lavar roupa.” acrescenta Dona Maria Luzinete, moradora das redondezas do rio há mais de 30 anos, que atualmente cuida da mãe idosa e doente. A irmã, Dona Bernadete, que a visita a cada quinze dias, comenta que quando podem elas e outros moradores não deixam as pessoas despejarem lixo nas margens, mas nem sempre é possível. “Tem coleta de lixo toda terça nos dias certos, mas o povo joga no lugar errado do mesmo jeito”.

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“Se tem coleta de lixo, se passa carro de lixo, por que é que o povo joga o lixo no rio?”, questiona Dona Bernadete.

Os principais impactos encontrados no Rio Salgado são os desmatamentos, as queimadas, o desvio do curso natural do rio, a poluição atmosférica dos centros urbanos realizada por indústrias e a utilização inadequada de agrotóxicos nas plantações próximas. Hoje, o Rio Salgado é ameaçado pela poluição nas suas águas subterrâneas, colocando em risco esse recurso que é essencial para o abastecimento de Juazeiro e de todas as outras cidades que dependem dele. A água dos poços abertos por meio de licitações feitas junto à AMAJU e fiscalizados tanto pela AMAJU quanto pela SEMASP - Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Serviços Públicos - vem das águas subterrâneas do Rio Salgado.

O mesmo rio que na superfície obriga peixes e tartarugas a colocar suas cabeças para fora a fim de obter oxigênio, são cenas chocantes que se tornaram comuns para diversos dos moradores do Rio Salgado. “Uns anos atrás, a gente pegava peixe, dava para pescar lá embaixo e era uma brincadeira.” relembra Seu Antônio “Hoje se acabou foi tudo, só tem mosquito e doença”.

Mudar este contexto, explica o superintendente Eraldo Oliveira, demanda muito recurso financeiro tanto do município quanto do Estado, pois o rio poluído, de tal maneira que suas águas agora são turvas e esverdeadas, lamacentas e com mau cheiro, não é um problema apenas para Juazeiro do Norte.

"Toda a água que sai do Cariri abastece o açude Castanhão. Por isso, se doamos tanta água à capital, nada mais justo do que eles darem auxílio financeiro para recuperarmos a qualidade da água. Ou seja, deixamos de ser um problema regional para um problema estadual. Já que o Rio Salgado alimenta e ajudou por tanto tempo a Região Metropolitana, está na hora da Região Metropolitana nos ajudar a recuperar o rio” afirma Eraldo.

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Professor e Pesquisador Rodolfo Sabiá

Sobre a fala do superintendente, o pesquisador Rodolfo Sabiá explica que ele se refere à integração de todas as instâncias que demandam do Rio Salgado e que dele são responsáveis. Não se trata de transferir a responsabilidade do rio para a capital do Ceará, Fortaleza, que necessita bastante de suas águas, mas de envolver todos os níveis governamentais - a sociedade, o município e o Estado - e estes agirem em conjunto na despoluição do Rio Salgado. 

 

Ele ainda complementa que, primeiro, é preciso investimento financeiro em saneamento básico. Segundo, políticas públicas visando a preservação do rio por parte do Estado e do município. E, por fim, é o setor privado acreditar que a água não é custo, mas é investimento. O professor ainda levanta a seguinte questão: 

 

“Será que vamos ter que ter crise hídrica para valorizarmos a água? A gente aqui no Brasil, no Nordeste, no Ceará, no Juazeiro, a gente está condicionado a uma realidade muito apática. Por não termos compromisso com o rio, não vemos a conexão do rio com a água subterrânea, ou seja, nós poluímos a água subterrânea.” alega o professor sobre as consequências que o abandono desenfreado do Rio Salgado gera, pois como ele faz parte de um aquífero que abastece toda a região do Crajubar - Crato, Juazeiro do Norte e Barbalha -, além de adjacências, o que o afeta na superfície atravessa o solo e alcança as águas dos poços, as mesmas utilizadas para consumo doméstico e comercial.

Rio Salgadinho - JN (CE)

E a própria população é prejudicada. Dona Luzinete afirma que algumas pessoas jogam animais mortos, entulho de construção e outras coisas. Em visita ao local, encontrarou-se um saco muito grande contendo dezenas de garrafas de vidro (material que poderia ser reciclado e convertido em dinheiro e reutilizado), uma caixa d’água de amianto com a tampa e traços de assentamentos humanos, como camas improvisadas, lençóis e restos de comida. Todo esse lixo lançado nas margens acaba acessando o leito das águas superficiais ou subterrâneas e retorna para a população através dos poços.

Seu Tico (Francisco Leite, 67), um dos irmãos de Seu Antônio, que reside no Bairro Logradouro a alguns quilômetros do rio, contou que há menos de 20 anos ainda era possível se banhar nas águas sem problemas, mas atualmente, qualquer um que resolva mergulhar é acometido por uma forte coceira. “Teve gente aqui do sítio que inventou de nadar um dia desses e ficou com uma coceira horrível na pele e precisou de umas quatro semanas pra se tratar.”

“Sem saneamento, nós não teremos despoluição do rio” diz José Eraldo Oliveira

“O Rio Salgado pode mudar, a concepção da quantidade e da qualidade da água. Apesar de estarmos num cenário crítico, nós temos soluções, basta que as autoridades, a população e o setor privado se dediquem a investir em condições. Por exemplo: há 10 anos atrás, as empresas não tinham SG - setor de gestão ambiental -, hoje toda empresa tem que ter SG, porque o Estado adotou isso como política porque os órgãos internacionais e outras instituições cobram isso. Se fez necessário.” comenta Rodolfo Sabiá, mostrando que mudanças a longo prazo pensando no bem-estar ambiental que reverbera no bem-estar social são possíveis uma vez que as ações cabíveis são tomadas o quanto antes.

Rodolfo Sabiá explica que a recuperação do Salgado é uma ação complicada porque o volume de água é grande, há poucos recursos disponíveis e poucas ações públicas voltadas para esta ação. Mas não é impossível. Comenta: “O Rio Tâmisa na Europa é um exemplo, mas demorou muito tempo para realizar esse processo”. E cria uma estimativa: se a limpeza começar hoje, talvez não se veja o resultado favorável nesta geração. “Mas tem que começar.”

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